quando dou, não tomo
multiplico, somo
amo, mas não domo
sou fada e gnomo
quando eu dou, eu como.

Silvia Sangirardi









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- Postado por: às 01h43 AM
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Subtrações

queria você em estado bruto,
sem o polimento da imagem,
sem a maquiagem das roupas, do corte do cabelo
e das palavras pensadas que
eu escolho e uso-ouso pra falar de você.

queria você nua de adjetivos,
despida dos clichês usuais,
virgem ainda do toque das palavras puídas,
desgastadas, prostituídas,
que já usei tantas vezes pra falar de corpos
não tão necessários quanto o seu.

queria apenas sua imagem
dissolvendo meus olhos e meu sexo,
excitando meu tato,
aguçando meu olfato,
sabor doce-salgado escorrendo pela minha língua,
provado-atestado pelo meu paladar.

queria você assim só para os sentidos,
só cheiro, gosto, toque, sensação,
sem a necessidade das palavras,
dos nomes, da narração pretensiosamente real
dos atos-fatos-acontecidos.

eu uso o meu desejo-querer
no pretérito imperfeito do indicativo,
porque estraguei todas as possibilidades
de ver, de olhos-nus-vazios,
você apenas sucessão de fotografias vivas,
sem legendas, sem frases explicativas,
sem notas de rodapé.

sujei sua carne, sua pele, suas partes
com minha saliva alfabetizada,
com minha saliva escravizada-amaldiçoada
pela necessidade de transformar em texto,
talvez poema, talvez prosa,
talvez artigo, talvez ensaio,
algo-seu-meu que jamais possa se aprisionar.

o que consigo
são esboços tortos,
mistura de traços, riscos, rabiscos esgarranchados,
e dicionários aos mil vasculhados,
atrás das palavras certas,
das combinações entre elas,
como quem busca recriar um DNA
e te reproduzir no papel
tal como você é.

você é minha maior vontade,
meu maior impulso primeiro,
minha maior frustração.
você é minha consciência viva e externa
da minha dependência, dos meus olhos pedintes,
do meu corpo sempre falta.

você é a certeza da minha necessidade
e da minha incapacidade,
da minha falsa autonomia,
da minha busca sem possibilidades,
das minhas mãos vazias.

você assim carne, assim pulso, corpo, pele, respiração
extrapola qualquer rima, qualquer versificação.
você é o próprio poema,
seduzindo, comovendo, excitando, rasgando, doendo.
o resto, meu bem,
é só meta-texto, referência, pretensão.
o resto, meu bem,
é apenas rascunho,
é apenas palavras como essas,
desenhadas, pedintes, querentes,
desejo frustrado, subtraído, gozo interrompido.

o que me resta,
entre restos da singularidade que é você,
é a contemplação muda,
os dedos em câimbras doloridas,
os olhos cansados de olhar
e a certeza da minha impotência
quanto ao dilaceramento do tempo
e a degradação da sua imagem-corpo-carne .

Texto: Janaína Calaça



- Postado por: às 03h17 AM
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Não, não é cansaço...

Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar.
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...
Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Álvaro de Campos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



- Postado por: às 11h15 AM
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