

quando dou, não
tomo
multiplico, somo
amo, mas não domo
sou fada e gnomo
quando eu
dou, eu como.
Silvia Sangirardi


Amor Perfeito




Sob o chuveiro amar, sabão e beijos,
ou na banheira amar, de água vestidos,
amor escorregante, foge, prende-se,
torna a fugir, água nos olhos, bocas,
dança, navegação, mergulho, chuva,
essa espuma nos ventres, a brancura
triangular do sexo -- é água, esperma,
é amor se esvaindo, ou nos tornamos fontes?
Carlos Drummond de Andrade

Ando cansada de muitas coisas
E de tanto andar cansada, me canso e não ando
Não vejo o mundo
Paraliso-me
Sinto-me árvore medrosa - parada...
Ando cansada de quebrar a cabeça
E de estar com a cabeça quebrada
Não vejo o todo
Fragmento-me
Sinto-me árvore sem reação - cortada...
Ando cansada de ser sombra e não frutos...
Sinto-me árvore estepe - usada...
Ando cansada da melancolia
E de correr para a pena
Não vejo as cores verdadeiras
Acinzento-me
Sinto-me árvore seca...
Ando cansada de tanta canseira...
E nem centenária eu sou...
E por estar tão cansada está chegando o momento de descanso
de fato...
Tirar a casca deste cansado tronco de quase quatro décadas
E me renovar...
Quem sabe eu consiga ser... sentir de outra forma... desta forma...
Mas .... a sina!...
Como conseguir florir? Ficar forte? Em meio a tantas outras raízes
que não são as minhas
e que ocupam espaços preciosos e estão interferindo no solo em que estou plantada?!
Será que realmente sou uma árvore.?

“Saudade é um pouco como fome.
Só passa quando se come a presença.
Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco:
Quer-se absorver a outra pessoa toda.
Essa vontade de ser o outro para uma unificação inteira
é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.”
Clarice Lispector

Às vezes é preciso recolher-se. O coração não quer obedecer, mas alguma vez se aquieta; a ansiedade tem pés ligeiros, mas alguma vez resolve sentar-se à beira dessas águas. Ficamos sem falar, sem pensar, sem agir. É um começo de sabedoria, e dói.
Dói controlar o pensamento, dói abafar o sentimento, além de ser doloroso parece pobre, triste e sem sentido. Amar era tão infinitamente melhor, curtir quem hoje se ausenta era tão imensamente mais rico. Não queremos escutar essa lição da vida, amadurecer parece algo sombrio, definitivo e assustador.
Mas às vezes aquietar-se e esperar que o amor do outro nos descubra nesta praia isolada é só o que nos resta. Entramos no casulo fabricado com tanta dificuldade, e ficamos quase sem sonhar.
Quem nos vê nos julga alheados, quem já não nos escuta pensa que emudecemos para sempre, e a gente mesmo às vezes desconfia de que nunca mais será capaz de nada claro, alegre, feliz.
Mas quem nos amou, se talvez nos amar ainda há de saber que se nossa essência é ambiguidade e mutação, este silêncio é tanto uma máscara quanto foram, quem sabe, um dia os seus acenos.

Enviado pela Lu Tunes...
Thanks gracinha, fica aqui marcado beijinhos....




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Flora Figueiredo
